Vivendo, errando, aprendendo
Vergonhas de quando a crítica e a polêmica importavam
É confortável amadurecer. É reconfortante fazer as pazes com nossos erros passados. Você vive, erra, repete. A vida é assim e depois morremos.
No caminho pra cova aparecem chances para arrependimento, acertos de contas, perdão. Cada oportunidade dessas é valiosa - agarre.
Tive chance recente com Nasi. Foi gentilíssimo na gravação deste novo episódio do nosso podcast “Amigos, Barcinski, Forasta e Paulão”. Ufa -mais uma vergonha despachada pro meu arquivo morto.
Fiz por merecer, lá no longíquo 1990. Desanquei no lançamento “Clandestino”, quarto disco do Ira!. O texto ia bem além da opinião e provocação. Nasi, banda e gravadora ficaram putos. Fiquei orgulhoso, uma medalhinha de mau comportamento a mais pra coleção. Hoje vejo como agressão vazia.
Essa resenha saiu em julho de 1990, meu segundo número como editor da “Bizz”. Fui contratado aos 24 anos, com exatos dezoito meses de jornalismo, todos na “Folha”. Deram um rojão para um bebê. Inexperiência e petulância, mistura explosiva.
Na “Folha” me ensinaram a escrever voando e fechar no prazo. O jornal valorizava língua solta e disposição para desagradar. O colunista que mais repercutia no jornal era meu ídolo Paulo Francis. “A gente sabe que a crítica foi boa pela quantidade de cartas de leitores reclamando”, aprendi lá.
Quando cheguei na “Bizz” seus leitores não reclamavam da revista, mas seu número vinha minguando. Ela vinha de uma fase muito pesquisada, ponderada, um tanto tépida. Suas páginas eram dominadas por música introspectiva e importante.
Fui contratado em grande parte pra mudar isso, impôr uma pegada mais pop e moleca; guardar os capotões pretos no armário e dar uma colorida na revista. Mas minha paleta era limitada a cores berrantes.
A redação antes tinha certa leniência com as bandas daquela geração, em especial as paulistanas. Compreensível. Eram todos amigos naquela cena, músicos, jornalistas, agitadores culturais. Muitos cresceram juntos, estudaram juntos, tocaram juntos.
Já meus heróis eram os britânicos bocudos que divinizavam e demoliam bandas nas páginas da “New Music Express”. Era referência até na sigla, “NME”, “inimigo”. Do quê? Do estabelecido.
Em pouco tempo a “Bizz” reuniu uma turma barulhenta, sangue novo atrás de sangue fresco. Inebriante atear fogo no circo, queimar pontes. Nenhum alvo estava a salvo.
Além do Ira! casquei botinadas no que já tirava como “dinossauros”, como Titãs, Paralamas, Barão, Paulo Ricardo; e até em carreiras que começavam, como Skowa e Adriana Calcanhoto. Um tanto foi sim estratégia editorial. Mas muito foi só exibicionismo e testosterona, o puro prazer da porrada, reconheço hoje, tiozinho.
Sob nosso diretor de redação, José Augusto Lemos, a revista aumentou bem em vendas, apelando pra capas com o sex-symbol do momento, Sebastian Bach, Jon Bon Jovi, ou fenômenos pop como Information Society, repetidas capas de Madonna, Guns etc. JAL também nos estimulou a pautar obscuridades, auscultar novas cenas locais Brasil afora, peitar pressões das gravadoras. Grato, chefe.
Ajudava a nova cena dos 90, que era espoleta e diversa: novos ídolos teen, hair metal, grunge, britpop, house, EBM, thrash, acid, world music, gangsta rap. Muitas bandas brasileiras pipocando. E MTV! Tava fácil ser quente. Até porque tava fácil ser inclusivo. E divisivo.
Logo pus fim na minha carreirinha na música. Pedi o chapéu na “Bizz” em agosto de 1993, pra começarmos nossa revista independente, a “General”, e de lá pra “Herói” e - pronto, três décadas voaram pela janela a jato.
A recente gravação do podcast foi a primeira vez que Nasi e eu conversamos. Gente fina, como eu já sabia por amigos. Taí experimentando com novos gêneros, com IA, exibindo vitalidade e versatilidade. Taí cantando e aplaudido no Ira! e valente nas posturas pessoal e política.
Nasi lembrou com carinho daquela época, logo no começo do nosso papo: quando éramos jovens, crítica e polêmica importavam mais. Tanto para os artistas quanto para o público. E para os jornalistas; e alguns de nós nos metemos um pouco a estrelas.
Foi legal, hoje é melhor. É bom amadurecer, foi ótimo ser moleque. A gente vai vivendo, errando, trupicando, aprendendo. No auge do sucesso, Linda Ronstadt lamentou: “Finalmente aprendi a cantar. Pena que o aprendizado foi em público.”
A vida é assim, não tem ensaio. Se pudesse voltar atrás, eu faria diferente muito do que fiz na “Bizz” e desde então. Mas hoje não tenho 24 anos.
Nem um mundo para explorar - ou explodir.
Na redação da Bizz, 1993. Foto de Paula Portela






Em minha nada modesta opinião, a melhor fase da revista. Levantou a cabeça, vem pedra, como dizia o Ivan Lessa.
É um deleite ler suas memórias. Se misturam às de uma geração inteira.