Quando erramos: "Tin Machine", 1989
Foi o maior equívoco de Bowie. Pisei na bola junto
"His review is a letter addressed to the future; to people 30 years hence who may wonder exactly what it felt like to be in a certain playhouse on a certain night."
Kenneth Tynan, descrevendo seu ideal de crítico
Era o fim dos anos 80 e o impossível acontecera: dava vergonha de David Bowie.
O ícone da descolância vanguardista se reduzira a paródia, desenxabido popstar e ator de filmes B, prestígio e vendas ladeira abaixo. Vivia seu “período Phil Collins”, como posteriormente ele mesmo se auto-avacalhou. Até licenciou “Modern Love” pra Pepsi.
Então celebramos em 1989 com a notícia que Bowie daria um basta às obrigações do estrelato anódino. Voltaria ao rock agressivo abandonado mais de vinte anos antes. E politizado! E como parte de… uma banda?
O álbum de estréia do Tin Machine saiu em um momento particularmente pútrido da música. As paradas globais eram dominadas por esterilidades tipo Milli Vanilli, Paula Abdul, Poison.
Na presidência dos EUA, um brucutu; no Oriente Médio, guerra. No Brasil, a direita aprontava; nas rádios, axé e sertanejo dominavam. Estávamos sedentos de sangue fresco - de qualquer sangue, suor, verdade.
Óbvio que vibrei ao ser escalado para escrever sobre o disco na “Folha”. E, pecado mortal, claro que já sentei para a primeira audição decidido a amar o Tin Machine. Ainda tenho o vinil cortesia da gravadora e o VHS com um sample das nove canções do disco, um ao vivo de mentirinha dirigido por Julien Temple.
O colega Jean-Yves de Neufville concordou que o álbum era uma maravilha e escreveu um side. Nosso chefe Mario Cesar Carvalho bancou a importante capa dominical da “Ilustrada”, 21 de maio, 37 anos atrás.
Nem autor nem leitores da minha matéria baba-ovo imaginariam o destino inglório que aguardava o Tin Machine. Republico abaixo para seu deleite e zombaria.
O Tin Machine capotou espetacularmente. Um choque, considerando o currículo de Bowie como estrategista-mor do rock. Que deu nele? Foi a crise dos quarenta? Que deu em mim? A inocência dos 24?
Foi só decisão errada: Bowie dispensou seu eterno escudeiro Carlos Alomar por um guitarrista complicador e dois irmãos metidos a punk; gravou seu disco porradaria na Suíça (!) e Bahamas (!!); entregou o comando ao produtor do Mission e Robert Plant, Tim Palmer; vestiu a banda como yuppies de Wall Street; deixou crescer a barba e gravou clipe de bermuda e descalço (!).
Ano seguinte David já estava apelando. Saiu em turnê só de sucessos, “Sound + Vision”, que passou pelo Brasil com Adrian Belew e sem menção ao Tin Machine. Assistimos emocionados no estádio do Palmeiras; não fui ao show do Olympia, baita bobeada. A esta altura eu já mudara para a “Bizz” e demos capa.
Tin Machine, a banda, gerou dois álbuns fracos e mais um ao vivo, péssimo. Foram anos importantes para um reboot na carreira de Bowie, explicou ele anos depois; e na sua vida pessoal, quando conheceu e se casou com Iman.
Logo a seguir reconectaria confortavelmente com parceiros do passado, Nile Rodgers em “White Tie, Black Noise” e Brian Eno para seu melhor disco da maturidade, “Outside”. Voltaria a tocar em São Paulo em 1997, com Mike Garson dos Spiders, Gail Ann Dorsey, um setlist mais arejado e papetes nos pés. Mas aí já tinha limpado a barra.
Revisitei “Tin Machine”. É ruim mas recomendo passeio rápido. Talvez descubras momentos marcantes soterrados sob a barulheira bombástica, linhas memoráveis nas letras descuidadas. “Pretty Thing” mantém o esporro e conecta com a futura “Little Wonder”; “I Can´t Read” merecidamente fez parte de repertórios futuros.
Lição: dane-se se a assinatura é de Bowie ou quem quer que seja. O pior cego é o que fecha os olhos para a mediocridade. Relevar é desonestidade com seu interlocutor, seu leitor, com o mundo.
A ética impõe ignorar boas intenções, passados de glórias e nossas próprias simpatia e caridade. Serve para música ou literatura, arquitetura, cozinha, jornalismo - e política, certamente.
Novato excitado, não resisti a amar Tin Machine antes de ouvir. Erro fatal e imperdoável. Mas me perdôo; não sabia o que fazia.
Hoje sei e sigo regra contrária: dos nossos melhores só se exige o melhor.




Lembro que já época não gostei. Mas escutando agora, sob sua sugestão... Nem achei tão ruim rsrsrs O bom Bowie está ali nas entrelinhas, né
Acho que de lá pra cá já ouvi tanta coisa tão ruim, que esse disco passou ao palatável. Será?
Forasta, comprei esse primeiro disco assim que saiu, tb apostando na fúria e na garra de uma banda nova cercando o Bowie. Mas foi decepção desde a primeira audição. Pra mim, a melhor do disco nem é do Bowie, mas do Lennon.