Entendeu ou quer que desenhe?
Viver é um prazer quando um papel em branco
Fui uma criança que gostava muito de desenhar. Mas lá pelos dez anos fiquei amigo de um vizinho que desenhava muito melhor.
O Paxixo morava na esquina de casa. O pai dele tinha uma venda, daquelas que ofereciam bacalhau seco em caixote de madeira e paçoca a granel.
Paxixo era engraçado e talentoso. Desenhava uns super-heróis fortudos e monstros gosmentos com tanta facilidade e graça que fui abandonando meus desenhos. Jamais chegaria perto.
Foi nessa mesma época que parei de ter lições de pintura com minha avó Francisca. Foram poucas e básicas, um pouco de aquarela, outro de acrilex.
Ela morava atrás do consultório do meu pai, no térreo da nossa casa em Piracicaba. Teve educação de moça fina do interior no início do século 20, internato de irmãs de São José, o que incluia música e pintura.
Minha avó era um doce. Herdei quadros pintados por ela, a maioria naturezas-mortas. Esse é o que mais amo.
Meu pai pintou pouco. Fez um retrato amoroso da minha mãe que hereticamente sugere Nossa Senhora Aparecida, cabocla com lenço no cabelo, pele morena jambo. Convivo diariamente com esse de Leon Bloy, pensador e polemista católico francês, um de seus ídolos de juventude.
De tempos pra cá matuto me inscrever num curso de desenho. A tentação aumentou quando uma amiga me contou que está fazendo e adorando, com um professor veterano, aqui pertinho de casa.
Tenho um problema: meu amor e respeito profundos pela ilustração, dos gibis aos museus, rupestres nas cavernas, renascentistas, impressionistas, Dada, pôster, folheto, capa de livro e disco, grafites nas ruas de São Paulo, tudo.
Então quando pego num lápis ou pincel a camisa pesa. Muito tesão e repertório podem te paralisar.
Encontrei a solução: ser muito simples. A simplicidade proposital é libertadora. E para inspiração coleciono imagens simples, das simplesmente encantadoras às enganadoramente simples.
Como aquela lá no alto. Ou essa.
Ou esses cartuns da clássica revista underground japonesa, a “Garo”.
Ou, bem, Frank Miller.
Porque quero desenhar?
Pela exata mesma razão porque leio, viajo, mergulho, papeio, cozinho, começo um novo negócio - ou te escrevo.
Pelo puro prazer de fazer o que estou fazendo; pela emoção do papel em branco à minha frente.







Garo era tudo. Teruhiko Yumura (ou "King Terry") é meu Pastor e nada me faltará.
Eu perdi essa vontade de desenhar, porque os adultos na época ficam falando como eu era bom, e sempre pediam que demonstrasse meu grande talento, aquilo era uma pressão que não sabia lidar na infância.